A freguesia beneficiando da proximidade da Estrada Real, que ligava Lisboa a Badajoz, via Aldeia Galega, desde sempre viu passar monarcas e outras personagens ilustres que pretendiam alcançar a fronteira e o sul do país.
Ao intenso movimento de passageiros não se pode deixar de acrescentar o provocado pela fé e religiosidade das populações locais e dos arredores que, já no início do século XVI, se deslocavam àquele local, em peregrinação. O Santuário da Senhora da Atalaia é objecto de um culto em que os romeiros e festeiros são determinantes para o mesmo, e somente em alguns momentos da chamada “Festa Grande” a Igreja se faz notar pela autoridade exercida.
A este Santuário e ao apelo da religiosidade, não se mostraram indiferentes alguns dos nossos monarcas e respectivas famílias, sendo alguns deles, particularmente, devotos da Senhora, como foi D. João V. No entanto, a última personagem régia a passar pela Igreja da Atalaia foi a rainha D. Maria II, em 5 de Outubro de 1843, acompanhada por D. Fernando e pelos filhos D. Pedro e D. Luís.
Curiosamente, esta data de 5 de Outubro que tinha sido de júbilo, registou 67 anos depois um movimento revolucionário que bastante abalou a religiosidade dos habitantes deste local e de vários peregrinos, que a ele afluíam: falamos da República e do anticlericalismo que lhe estava arreigado.
Veja-se o cruzeiro de gosto manuelino construído em 1551 com as suas imagens decapitadas, bem como o retábulo em talha do altar mor da igreja onde a coroa, que encima as armas reais se encontra partida. Atente-se também ao assalto realizado em 1912, após um comício efectuado em Aldeia Galega por Magalhães Lima, onde, a coberto da noite, alguns populares penetraram na igreja e rasgaram os paramentos, mutilaram as imagens e, entre outros excessos, acabaram por transportar as mesmas para as portas de duas tabernas da Vila.
Contudo, não se pense que foi só a República a deixar traços nefastos na vida desta terra. As invasões francesas, no ano de 1808, originaram o saque da Igreja da Atalaia, pelos exércitos de Napoleão Bonaparte.
No entanto, os habitantes deste sítio e os peregrinos sempre souberam ultrapassar todas estas dificuldades, fazendo com que o espírito de religiosidade popular, que deu origem ao culto da Senhora da Atalaia, se mantivesse vivo, qual chama imorredoura, até aos nossos dias.
Joaquim Balderico
Câmara Municipal de Montijo